Mestre Zu

CRÍTICA

Ricardo Accioly Filho

10/21/20265 min read

Chegamos aos créditos de... Mestre Zu com aquele sentimento bom de ter passado algumas horas na sala de estar de um grupo de amigos, ouvindo histórias que mereciam não se perder no tempo. Em codireção com Luciana Savaget, o cineasta Zelito Viana revisita a trajetória de Zuenir Ventura, um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro, a partir de uma reunião afetiva na casa do diretor.

Entre lembranças de redação, episódios marcantes e histórias pessoais, jornalistas, familiares e amigos ajudam a reconstruir a vida de um profissional cuja história se confunde com a do próprio país. As conversas revelam diferentes facetas de Zuenir, que passou por importantes veículos da imprensa brasileira e também deixou sua marca na literatura, com obras como "1968: O Ano que Não Terminou" e "Cidade Partida". A partir desses relatos, o documentário traça o retrato do sétimo ocupante da cadeira nº 32 da Academia Brasileira de Letras e de sua contribuição para o jornalismo, aproximando a trajetória individual das transformações políticas, culturais e sociais vividas pelo Brasil.

Em vez de apostar em uma biografia convencional, organizada por datas e acontecimentos, o filme transforma os depoimentos em uma grande roda de conversa. Há uma espontaneidade que aproxima o espectador daquele ambiente, como se a câmera também tivesse recebido um convite para participar da reunião. As histórias ganham vida no entusiasmo de quem as conta, e a figura de Zuenir se constrói não apenas pelos feitos profissionais, mas também pelas relações pessoais, pelo humor e pelo respeito conquistado ao longo de décadas.

A fotografia de Walter Carvalho acompanha essa proposta intimista, enquanto os registros de arquivo ampliam o alcance dos relatos e conectam as memórias individuais aos acontecimentos que marcaram o país. As imagens não funcionam apenas como ilustração do que é contado, elas ajudam a recuperar o contexto em que determinadas reportagens foram produzidas e as circunstâncias que fizeram do jornalismo uma atividade fundamental para compreender a realidade brasileira. A montagem favorece a proximidade entre os participantes e a fluidez das lembranças, embora a estrutura baseada em depoimentos, por vezes, deixe em segundo plano as tensões da profissão, as decisões difíceis e os conflitos que atravessaram a trajetória do jornalista.

A trajetória de Zuenir passa pela repressão da Ditadura Militar, pela redemocratização e pelas contradições sociais que moldaram o Brasil nas últimas décadas. A lembrança de sua prisão em 1968 devolve ao espectador a dimensão dos riscos enfrentados por profissionais da imprensa em um período no qual informar também significava desafiar o poder. Portanto, ao recuperar um episódio biográfico, o documentário evidencia as consequências de um regime que procurou controlar a circulação de informações e silenciar vozes incômodas.

O filme também resgata uma maneira de fazer jornalismo na qual a apuração, a responsabilidade e a coragem eram parte de uma disputa permanente pelo direito de conhecer os fatos. Em meio à circulação acelerada de informações e à dificuldade de distinguir fatos de versões convenientes, essa memória ultrapassa a nostalgia e convida a refletir sobre os compromissos que sustentam a profissão.

Outro capítulo importante é o trabalho de Zuenir sobre Chico Mendes e a luta em defesa da Amazônia. Ao rememorar a história do líder seringueiro, o documentário lembra que a destruição ambiental não pode ser dissociada dos interesses econômicos, dos conflitos pela terra e da violência contra populações que resistem à exploração de seus territórios. A discussão permanece atual diante do avanço do garimpo ilegal e de outras atividades predatórias, que tornam ainda mais urgente a atuação de uma imprensa capaz de investigar, denunciar e dar visibilidade a realidades que muitos prefeririam manter longe dos olhos do público.

A proximidade do período eleitoral também reforça a importância dessa reflexão. Em meio à disputa por atenção, às promessas de campanha e à multiplicação de discursos políticos, Mestre Zu recorda que o trabalho da imprensa não se resume a reproduzir declarações ou alimentar disputas de versões. Investigar, contextualizar e questionar são tarefas essenciais para que a sociedade compreenda os acontecimentos e possa formar suas próprias opiniões. É uma lição antiga, mas que continua necessária.

O documentário de Zelito Viana não pretende reinventar a linguagem do gênero. Sua estrutura de depoimentos limita, em alguns momentos, o aprofundamento de questões mais controversas, mas sua contribuição está na maneira como reúne testemunhos, imagens de arquivo e experiências pessoais para preservar uma trajetória que ajuda a explicar o país. A obra vale menos pela experimentação formal do que pela capacidade de transformar uma homenagem em reflexão sobre a imprensa, os riscos do autoritarismo e a responsabilidade de registrar aquilo que a história não pode apagar.

A morte de Zuenir Ventura, em setembro de 2026, torna essa experiência ainda mais comovente. O documentário chega ao público como um reencontro com alguém que já não está entre nós, mas cuja presença permanece nos livros, nas reportagens e na memória de quem dividiu com ele a profissão e a vida. A intimidade dos relatos ganha outro significado diante dessa ausência, até porque não se trata apenas de recordar uma carreira admirável, mas de preservar a voz e as experiências de alguém que ajudou a interpretar o Brasil.

Zuenir Ventura foi um intérprete do país, capaz de aproximar a precisão da reportagem da sensibilidade da literatura sem perder de vista as pessoas por trás dos acontecimentos. Mestre Zu mostra que um legado não se mede apenas pelos prêmios, cargos ou livros publicados, mas também pela capacidade de influenciar a maneira como outras pessoas enxergam o mundo. Chamá-lo de mestre, portanto, é reconhecer alguém que ajudou gerações a compreender o Brasil e deixou uma lição que permanece indispensável: a história precisa ser contada, a verdade precisa ser perseguida e o jornalismo precisa continuar fazendo perguntas, sobretudo quando alguns preferem que ninguém as faça.

Nota: 4,5/5.