Dentro da Baleia

CRÍTICA

Ricardo Accioly FIlho

10/21/20264 min read

Chegamos aos créditos de... Dentro da Baleia, filme protagonizado por Josh Brolin e Austin Abrams, conhecido por trabalhos como a série Euphoria e o longa Cidades de Papel. Aqui, o ator embarca em uma aventura que o coloca, literalmente, no interior de uma cachalote, em uma luta pela sobrevivência que também se transforma em um mergulho nas próprias emoções.

A trama acompanha Jay Gardiner, um jovem mergulhador vivido por Abrams que parte para alto-mar em busca dos restos mortais do pai, interpretado por Brolin. Durante a jornada, porém, ele acaba engolido por uma cachalote de 25 metros e 60 toneladas. Com apenas uma hora de oxigênio disponível, Jay precisa encontrar uma saída antes que seja tarde demais. A luta pela sobrevivência logo se mistura ao peso da perda, colocando o protagonista diante de sentimentos que ainda não conseguiu elaborar e de uma relação com o pai que parece ter deixado questões em aberto.

Com uma narrativa que combina suspense e sensibilidade, o longa encontra sua qualidade ao perceber que escapar daquela situação extrema é apenas parte do desafio. Por trás de uma premissa tão inusitada, existe uma história sobre luto, vínculos familiares e a dificuldade de compreender aqueles que amamos. Sem perder tempo com desvios desnecessários, o roteiro mantém a sensação de urgência e faz com que cada acontecimento acrescente uma nova camada de tensão.

A câmera de Brian Duffield, que também assina o roteiro, nos revela um cenário tão fascinante quanto ameaçador nas entranhas da baleia, e o trabalho de direção de arte aliado ao CGI dá credibilidade a esse ambiente incomum. A trama também referencia histórias já enraizadas no imaginário coletivo, desde o relato bíblico de Jonas e a baleia até Moby Dick, de Herman Melville, embora aqui o fascínio pelo animal ceda espaço a uma luta íntima pela sobrevivência. Já a situação de Jay remete a 127 Horas, de Danny Boyle, pela maneira como o confinamento extremo transforma a resistência física em uma batalha psicológica.

Ainda que dialogue com essas referências, Dentro da Baleia encontra seu próprio caminho ao explorar a dimensão emocional dessa experiência. A direção de arte impressiona sem transformar a aventura em um mero espetáculo, enquanto a construção daquele espaço reforça a sensação de claustrofobia. Mesmo diante da grandiosidade do animal, Jay está preso em um ambiente que pode se tornar sua sentença a qualquer momento, e essa ameaça acompanha o espectador durante boa parte da projeção.

É nesse cenário que Austin Abrams encontra espaço para entregar uma atuação bastante convincente. O ator transmite a vulnerabilidade de alguém colocado diante de uma situação que foge completamente ao seu controle, alternando medo, desespero e determinação sem exagerar nas reações. Sua atuação cresce conforme a história avança, mas é no terceiro ato que alcança seu melhor momento.

Nas sequências de maior tensão dentro da baleia, Abrams consegue transmitir a aflição do personagem de maneira genuína, fazendo com que o perigo pareça cada vez mais próximo. Ao mesmo tempo, o conflito deixa de ser apenas físico: preso naquele lugar, Jay também precisa lidar com as lembranças e os sentimentos que envolvem a figura paterna.

Embora Austin Abrams sustente boa parte da tensão da narrativa, Josh Brolin é o coração emocional do filme. Mesmo ocupando um lugar diferente na jornada do protagonista, sua presença dá sentido à busca de Jay e se torna o elo que pode conduzi-lo à salvação, tanto física quanto emocional. Brolin ajuda a construir uma figura paterna que ultrapassa as lembranças de um filho enlutado, tornando-se parte essencial da transformação que o personagem precisa enfrentar.

É essa influência que impede a história de se resumir a uma aventura de sobrevivência: no momento em que tudo parece depender da capacidade de encontrar uma saída, é a conexão com o pai que oferece a Jay uma razão para continuar. A relação do pai com as baleias ganha um novo significado quando o animal, inicialmente uma ameaça à sobrevivência do protagonista, passa a representar uma ligação inesperada entre duas pessoas que já não conseguiam se entender plenamente.

Uma escolha interessante do filme, que encontra na própria situação perturbadora e incomum uma maneira de aproximar pai e filho, mesmo diante da ausência e das questões que ficaram sem resposta. Dentro da Baleia nos lembra que sobreviver nem sempre significa apenas encontrar uma saída. Às vezes, é preciso atravessar os próprios medos para enxergar aquilo que a distância e os silêncios nos impediram de compreender.

Dito isso, ao transformar o interior de uma baleia em um espaço de reconexão entre pai e filho, o filme encontra sua imagem mais bonita, aquela em que para se aproximar de quem já não estava ao seu alcance, Jay precisou mergulhar no universo que um dia os uniu. Até porque, muitas vezes, é preciso entrar na imensidão de uma baleia para descobrir o tamanho de um sentimento que nunca deixou de existir.